"Quando falava, os seus temas de conversa eram as árvores, a Natureza e coisas parecidas. Todos pensávamos que lhe faltava um parafuso."

Essas esclarecedoras palavras, ditas por uma empregada do McDonald's de Bullhead City, no Arizona, a respeito de um jovem empregado andarilho que vivia para celebrar o contato com a Natureza, dizem muito a respeito da sociedade humana em qualquer lugar do planeta, e como as pessoas que se acham normais vêem a nós outros, os pouquíssimos que conseguem passar pela vida sem se deixar enredar nas teias nojentas do comum e do rotineiro %u2013 a vida na cidade, o gosto pelo supérfluo, o culto à idiotice e à mesmice.

Chris McCandless, o jovem a quem a debilóide do fast-food se referia, morreu em 1992 no Alaska, aos 24 anos, depois de ter abandonado a vida comum de americano médio e de ter se internado nas imensidões selvagens de seu país em busca de si mesmo.

Encontrou a morte, mas também a realização plena enquanto vivia, nas muitas manifestações do mundo natural que nos cercam diariamente, mas que as nossas couraças de civilização nos impedem de ver, e as nossas mordaças de gente "normal" nos impedem de celebrar, sob pena de sermos transformados em excentricidades de circo, nas conversas que muitos dos que nos cercam fazem invariavelmente às nossas costas.

O primeiro rascunho chamava-se "Aspargos no Quênia", em função de um episódio surreal num restaurante de Nairobi que, quem sabe, ainda conte uma hora destas. Eu ia escrever um livro de memórias, mas o formato de quase-blog quem sabe reflita melhor a fabulosa diversidade de experiências que me foram presenteadas pela vida de ambientalista muito pouco convencional.

Não é essa página pessoal nem guia, nem sermão, não há nela uma linha de pretensão no sentido de fazer amigos e influenciar pessoas, já que cada vivente sabe onde lhe aperta o sapato e o que lhe sai melhor para uma existência feliz e (às vezes) até produtiva.

Mas ele é, sim, um livro de contabilidade, creio eu capaz de demonstrar que ser pária da sociedade, maluco e defensor da Natureza dá mais alegrias que tristezas, apesar dos pesares. E que, como dizia meu amigo Jorge Maluco Eisenhut, a modéstia é a arma dos ineptos. Aqui, imodestamente, mostro um pouco como eu gosto do que fiz nesses primeiros quarenta e poucos anos de atropelos e correrias da Antártida à Islândia. E... ai de quem estiver por perto nos próximos 40!

José Truda Palazzo Jr.

Melhor sorte me foi reservada que a de McCandless; desde que nasci, fui tolerado nas minhas excentricidades pela minha família, que ao mesmo tempo em que me deu liberdade para me transformar em ambientalista, me contaminou com doses indeléveis de bom senso e bom gosto - o suficiente para impedir que me matasse numa trilha abandonada, que nem aquele pobre guri americano, e para que eu saiba desfrutar do prazer de uma praia deserta no inverno, certo, mas também de uma suíte decente do Santiago Crowne Plaza com abundantes garrafas do bom vinho chileno no frigobar.

Para que eu possa apreciar o incomparável por-do-sol sobre o Atlântico Sul desbordando seus reflexos dourados sobre a Table Mountain, na Cidade do Cabo, saboreando uma boa dúzia de ostras no Waterfront para me recuperar dos muitos quilômetros andados durante o dia. Wilderness é bom, mas é ainda melhor com estilo.

Este espaço virtual é, pois, uma celebração do mundo em que vivo, mas também um monumento ao sucesso (pra mim, ao menos) da minha caminhada decididamente anormal pelo planeta Terra. Acabei por sucumbir aos muitos amigos que me incitaram a escrever algumas das minhas memórias, de preferência antes de ficar completamente caduco, o que segundo alguns já vem acontecendo de há tempos.